Pouco conhecidas, essas sementes se destacam pela grande facilidade de adaptação a diversos ecossistemas
A preservação do meio ambiente e a necessidade de atender à demanda de produção de alimentos sempre estiveram no centro de debates entre ambientalistas e agricultores. Grande parte dessa discussão gira em torno dos limites que devem ser estabelecidos a essas produções para diminuir os impactos aos ecossistemas. Nesse contexto, as sementes crioulas, ainda pouco conhecidas e utilizadas, ganham grande destaque.
Elas consistem em sementes que passaram por cruzamento e melhoramento genético ao longo de vários anos. Esse aprimoramento é realizado por povos tradicionais, indígenas e núcleos de agricultura familiar e passado de geração em geração. Elas se diferenciam pela harmonia que possuem com o meio ambiente, já que não necessitam de pesticidas, agrotóxicos e outros compostos químicos nocivos ao solo e à água.
O termo “crioula” originou-se nos séculos passados, quando os estudos acerca do melhoramento genético, especialmente com interferências laboratoriais, ainda eram escassos.
“As sementes crioulas, ou variedade crioula, são populações conservadas que foram obtidas através de seleção e cruzamento natural realizado pelos agricultores ao longo de várias gerações”, destaca a analista ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas-PE), Febe de Oliveira.

Graças a esse melhoramento genético realizado através da seleção natural, as comunidades conseguiram encontrar sementes completamente adaptadas às regiões por onde passaram pelo processo. Devido a isso, as sementes crioulas possuem um grande potencial de adaptação a diversos biomas e ecossistemas, além de respeitarem o meio ambiente por oferecerem uma variedade genética às regiões nas quais são cultivadas.
Febe ressalta que essas sementes passaram por um processo de escanteamento, que culminou na redução da sua utilização, principalmente no período da denominada ‘revolução verde’, iniciada após a segunda guerra mundial e intensificada na década de 70.
“Com essa revolução, várias sementes crioulas foram extintas e deram espaço às sementes híbridas visando uma maior produtividade”, explica. “Não podemos negar que a semente híbrida tem uma maior produtividade, mas isso não significa que tenha uma melhor produção”, encerra.
Mulheres guardiãs de sementes nativas

A Semas-PE, com apoio do Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema), realiza projetos com sementes crioulas. Um deles, o projeto ‘Mulheres guardiãs de sementes nativas’ busca promover processos de formação técnica e socioambiental para mulheres produtoras, coletoras e guardiãs de sementes das regiões selecionadas, fomentando a importância da articulação e organização em rede e o desenvolvimento de práticas sustentáveis de produção, coleta, manejo e uso de sementes nativas e crioulas, visando a conservação da biodiversidade dos biomas da Caatinga e da Mata Atlântica.
A Semas-PE apoia o projeto com o financiamento nas regiões da Zona da Mata, Agreste e Sertão. As instituições proponentes foram a Cáritas de Pesqueira, Casa da Mulher, Associação dos Agricultores Familiares do Assentamento Mandacaru (AAFAM) e a ONG Cepan.
O projeto, que começou a ser realizado no primeiro trimestre de 2023, procura trabalhar a identificação e a caracterização das principais sementes nativas e de produção de alimentos para uso de agroflorestamento, práticas e procedimentos relacionados ao manejo, gestão, uso e comercialização das sementes, coleta das sementes nativas na Caatinga e na Mata Atlântica.
