Estudo publicado em revista britânica constatou que quase 40% dos anfíbios estão correndo risco de extinção devido às alterações do clima
Os anfíbios, um grupo de animais que desempenham um papel importante para o equilíbrio ambiental, são um dos mais afetados pelas alterações climáticas e ações antrópicas ao meio ambiente. Essa problemática ganhou ainda mais respaldo científico após a publicação de uma pesquisa que avaliou o impacto das mudanças no clima na vida de mais de 8 mil espécies de anfíbios. Os dados expostos podem ser considerados alarmantes.
O estudo, publicado em outubro de 2023 na revista científica britânica Nature, apontou para a necessidade cada vez mais urgente de traçar objetivos e ações que visem a atenuação dos impactos das mudanças climáticas na vida dos anfíbios, grupo composto, principalmente, pelos sapos, rãs, anuros, salamandras e cecílias. Segundo o estudo, mais de 40% deles estão correndo risco de extinção.
Os anfíbios são considerados essenciais para a manutenção do equilíbrio ambiental. Segundo a gerente geral do Parque Estadual de Dois Irmãos (PEDI), Marina Falcão, eles são os principais responsáveis pelo controle natural de pragas nos ambientes urbano e rural.
“Os anuros, sapos, rãs e pererecas têm um papel fundamental de realizar o controle de populações que nós chamamos de pragas. Já que a maior parte da dieta desses animais são invertebrados, como os insetos, eles acabam auxiliando no controle de pragas, que podem até transmitir doenças para os seres humanos”, explica Marina.
A pesquisa constatou que o principal vilão desses animais são o desmatamento e o calor extremo, causado, majoritariamente, pelos longos períodos de seca e incêndios florestais cada vez mais recorrentes.
Cerca de 39% dos anfíbios enfrentam riscos de extinção devido, sobretudo, às mudanças climáticas, que já têm trazido alterações em larga escala em todos os ecossistemas. Essa emergência ambiental é ainda mais intensificada devido ao fato de os anfíbios não realizarem grandes fluxos migratórios, como as aves, impossibilitando que esse grupo se desloque e se estabeleça em regiões menos vulneráveis.
Samanta Della Bella, gerente geral de mudanças climáticas da Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha de Pernambuco (Semas-PE), explica que as mudanças do clima impactam diretamente todos os seres vivos do planeta, mas ressalta que existem grupos que sentem mais as consequências dessas alterações. Segundo ela, os anfíbios estão mais vulneráveis por possuírem um mecanismo biológico de controle da temperatura diferente de boa parte da fauna.
“Todos os animais têm um intervalo de temperatura nos quais eles conseguem viver confortavelmente bem. Existem os animais que controlam a temperatura, como os mamíferos, por exemplo, e os animais que não controlam, como os anfíbios. Eles precisam, para concluírem algumas reações e para o bom funcionamento do metabolismo, de temperaturas específicas. Quando existem alterações ambientais, eles têm dificuldade de fazer com que o organismo funcione plenamente”, afirma.
Samanta ainda destaca que os animais, especialmente os anfíbios, estão biologicamente acostumados a viver com um intervalo determinado de temperatura. Com as alterações climáticas ocasionando um aumento médio da temperatura global e o maior registro de secas e ondas de calor, esses animais não conseguem conviver com temperaturas médias mais altas do que as de costume para eles, trazendo impactos consideráveis no hábito de vida dos anfíbios.
Um dos principais mecanismos, ainda segundo Samanta, para tentar frear os riscos de extinção desses animais é a Unidade de Conservação (UC). Equipamentos ambientais de extrema importância, as UC’s são grandes áreas, situadas em regiões rurais ou urbanas, que conservam integralmente fragmentos de biomas nativos e permitem que a fauna e flora desses ecossistemas sejam monitoradas, estudadas e protegidas, especialmente as espécies que mais sofrem com o desequilíbrio ambiental, como os anfíbios.
“As Unidades de Conservação são imprescindíveis. Principalmente por assegurarem a manutenção do ambiente natural para a presença de diversas espécies de anfíbios, como as espécies ameaçadas e mais sensíveis, mas também por promoverem a sensibilização ambiental, para que as pessoas entendam a importância dessas espécies, que desmitifiquem alguns conhecimentos populares sem fundamentação científica ou ecológica, que entendam a importância e saibam lidar com essas espécies no dia a dia”, destaca Marina.
Acesse o estudo completo pelo link https://encr.pw/tQPE9.
