Análise indicou que atividades ligadas à agropecuária e ao cultivo da cana-de-açúcar impulsionaram o aumento da quantidade de variados elementos, incluindo tóxicos
Uma pesquisa realizada pela engenheira agrônoma Juscélia Ferreira, do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia Energéticas e Nucleares (Proten), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), constatou que atividades antrópicas, advindas das ações humanas, impactam diretamente no aumento da concentração de elementos químicos nas florestas de Pernambuco, especialmente as que se encontram em fase de regeneração.
A pesquisa avaliou solos e flora dos municípios de Araripina, Serra Talhada e Triunfo, no sertão; Caruaru, no Agreste; e Igarassu, na Região Metropolitana do Recife. A escolha dos municípios foi feita para incluir todas as regiões do estado na análise, desde o sertão até o litoral, permitindo uma melhor compreensão da situação dos solos pernambucanos.
A pesquisa selecionou dois locais de vegetação nativa em cada um dos municípios, sendo uma área de floresta madura, que não sofreu impacto da ação humana, e outra de floresta jovem, que atravessa o processo de regeneração. Essa etapa consiste na gradativa recuperação do solo e da flora após diferentes tipos de intervenção antrópica, principalmente as relacionadas à agropecuária.
Os resultados obtidos apontam para uma concentração maior de elementos químicos em florestas em regeneração de Igarassu, no litoral norte. Segundo a pesquisadora, isso se deve aos séculos de cultivo único da cana-de-açúcar, que aumentou a concentração de silício, estrôncio, potássio e cálcio e diminuiu a quantidade de ferro e vanádio. “É uma herança do cultivo de cana-de-açúcar nessas áreas, onde, por muitos anos, aplicaram-se grandes quantidades de adubos e fertilizantes que apresentam esses elementos na sua composição”, destacou. Ainda de acordo com ela, a influência da plantação açucareira no litoral também auxiliou no aumento da concentração de Cádmio, um elemento tóxico.
A situação mais discrepante entre os solos foi observada nos municípios de Araripina e Serra Talhada. Mesmo estando situadas no sertão, a pesquisa indicou que o solo de Araripina apresentou mais sinais de um processo denominado de intemperismo, que consiste no desgaste das rochas, causado por fatores naturais ou antrópicos, que acabam originando os solos. Segundo Juscélia, a região de Serra Talhada não apresentou grande concentração dos elementos encontrados em Igarassu, por exemplo, porque boa parte da agricultura praticada no município sertanejo não era de grande porte, se limitando à subsistência, e, por isso, não existindo a necessidade de utilização de fertilizantes e compostos químicos.
Já os solos de Triunfo e Caruaru apresentaram composição semelhante à encontrada em Serra Talhada devido, segundo a pesquisadora, à proximidade entre os municípios. Foi constatado uma concentração de ferro mais baixa nas folhas da vegetação em Triunfo, semelhantes às concentrações de Serra Talhada. A quantidade de estrôncio, assim como a de cobre, também foram parecidas com as de Serra Talhada. As taxas de cádmio em Caruaru foram consideradas altas, cenário semelhante ao de Igarassu, mesmo os municípios estando longe um do outro. Os elementos encontrados nas folhas, segundo Juscélia, comprovam a baixa ou a alta quantidade deles no solo.
A engenheira destacou a comparação dos solos de regiões de floresta madura e em regeneração. A análise mostrou que há uma maior concentração de elementos como manganês, ferro, cobre, zinco, estrôncio, potássio e cálcio nas áreas em regeneração tanto no solo quanto nas plantas.
“Não encontramos elementos tóxicos em concentrações que estejam afetando negativamente a saúde da floresta nos locais estudados, porém o que observamos foi o quanto a atividade antrópica expressa seus efeitos mesmo após anos de estabelecimento da floresta onde antes existia atividade agropecuária. O caso da floresta em regeneração de Igarassu é um exemplo”, enfatizou a engenheira.
Ela ainda defendeu a realização de mais estudos como esses para melhor diagnosticar as problemáticas dos ecossistemas. “Estudos dessa natureza devem ser continuados, pois Pernambuco, assim como a Região Nordeste, apresenta florestas tropicais cujas características são condicionadas por uma grande diversidade de solos e precipitação, que condicionam uma igualmente grande diversidade de espécies”, encerrou.
