Encontro discutiu a importância dos múltiplos saberes na construção da Educação Ambiental e os seus principais desafios no Brasil e no mundo
Na tarde desta terça-feira (6), a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha de Pernambuco (Semas-PE), por meio da Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental (CIEA-PE), realizou o primeiro dia de programação do I Seminário de Educação Ambiental de Pernambuco, no auditório do Campus Recife do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), localizado na Zona Oeste do Recife.
O evento reuniu diversas instituições, escolas, associações, líderes e representantes de ações e projetos ligados à Educação Ambiental em todo o território de Pernambuco, promovendo um diálogo multidisciplinar e rico em conhecimento com todas as camadas sociais.
Logo no início, o encontro apresentou todos os membros da mesa solene, composta por Ana Luiza Ferreira, secretária da Semas-PE, Lays Lima, gestora técnica de Educação Ambiental da pasta e presidente da CIEA-PE, José de Anchieta, diretor-presidente da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), José Bento, diretor de educação à distância, Luís Costa, representante da Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco (SEE-PE), e Fábio Nicácio, representando a reitoria do IFPE.
Todos os presentes à mesa destacaram a importância da inserção do evento no calendário socioambiental de Pernambuco e defenderam o debate multimodal e transversal na sociedade, sempre situando a Educação Ambiental como um componente inegociável na construção de um futuro ambientalmente correto e socialmente justo.
A secretária Ana Luiza Ferreira aproveitou sua fala para ressaltar as ações já realizadas pela Semas desde o início da atual gestão. Ela destacou o lançamento do Programa Plantar Juntos e do Plano Pernambucano de Mudança Econômico-Ecológica (Permeie), duas das principais iniciativas do governo do estado no campo ambiental. Segundo a secretária, essas duas ações dialogam diretamente com a Educação Ambiental, pois auxiliam, respectivamente, na restauração da cobertura vegetal de todo o território do estado e na transformação da matriz econômica de Pernambuco, inserindo o meio ambiente como fator essencial na atividade socioeconômica.
“Temos trabalhado muito duro manhã, tarde e noite para executar, de fato, o protagonismo que o meio ambiente vem tendo e precisa ter em todo o mundo. Em Pernambuco, nós temos hoje uma gestão que de fato entende, valoriza e, mais do que isso, cobra um novo momento do meio ambiente. Além disso, também tem nos dado uma oportunidade de montagem e execução das políticas de desenvolvimento de todo o estado de Pernambuco”, pontuou Ana Luiza.
Na sequência, os presentes puderam apreciar uma apresentação teatral do grupo Donarte, que integra o projeto ‘Verdeporto’, realizado pela Organização da Sociedade Civil (OSC) Geração Futuro, do município de Lagoa de Itaenga, na Zona da Mata Norte do estado. O projeto promove uma série de atividades com idosas do município e de cidades adjacentes incentivando a Educação Ambiental no cultivo de produtos orgânicos, plantio de mudas de espécies nativas e outras atividades educativas.
Devido a uma breve indisponibilidade, a organização do encontro reverteu a ordem das mesas. A primeira do dia foi formada por Iran Xukuru, do povo Xukuru, situado no sertão pernambucano, Rayana Burgos, técnica em sustentabilidade da Semas, e Maria José Lima, professora aposentada e ex-docente de diversas universidades do Nordeste. O eixo temático da mesa foi a mescla de saberes entre os entes acadêmicos, científicos e populares, principalmente os tradicionais e quilombolas.
Iran abordou a relação afetuosa e harmônica entre os povos originários, como o povo Xukuru de Ororubá, e o meio ambiente, destacando os costumes desses povos na preservação dos ecossistemas e a importância de alocar esses conhecimentos populares na discussão acerca da Educação Ambiental em todos os momentos.
“Devemos valorizar o que chamamos de “Ciência da Mata”. Pode ser conhecimento popular, pode ser saber popular, pode ser conhecimento empírico, mas é ciência da mata, a ciência dos invisíveis, dos seres não humanos que habitam a floresta. Todos os problemas que estão aí são fruto do nosso descuido. Então falar de uma cultura e de uma educação ambiental é discutirmos uma cultura de cuidado”, ressaltou Iran.
O discurso de Iran compactuou com o de Rayana. Adepta da umbanda, uma das maiores religiões de matriz-africana do país, ela também enfatizou que uma boa prática religiosa perpassa pela conservação e pelo pleno respeito aos recursos naturais e aos elementos que compõem o meio ambiente. Além disso, aproveitou o momento para discutir, mesmo que brevemente, a desconstrução de conceitos e preconceitos indevidamente impostos a essas religiões.
Já a professora Maria José completou a abordagem dos dois, expressando a relevância da complexidade de saberes e ensinamentos presentes em Pernambuco e no Brasil que devem ser incorporados e considerados em qualquer debate que envolva uma educação com enfoque no meio ambiente.

Em seguida, ainda no âmbito acadêmico, o professor Clemente Coelho, da Universidade de Pernambuco (UPE), apresentou as ações de um projeto com enfoque nos manguezais realizado no litoral nordestino. O projeto tem como objetivo disseminar o conhecimento já adquirido acerca dos manguezais pelas comunidades ribeirinhas e próximas a esses ecossistemas, levando a Educação Ambiental, através de atividades lúdicas, oficinas e debates, para as crianças e os moradores dessas áreas.
A segunda e última mesa do dia contou com a participação da Gestora de Educação Ambiental da CPRH, Lúcia Maria, e dos professores Solange Coutinho, da UPE e da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), e Fábio Pedrosa, também da UPE, e teve os marcos e desafios da Educação Ambiental ao longo do tempo como pauta de debate.
Lúcia começou a abordagem trazendo uma linha do tempo com os principais marcos históricos da Educação Ambiental no mundo, desde a década de 50, quando o conceito começou a ser ventilado em plenárias, fóruns e seminários na Europa, até os últimos anos, dando ênfase em 2019, quando a Política de Educação Ambiental de Pernambuco (Peape) foi promulgada.
Já Solange Coutinho listou os principais desafios enfrentados no objetivo de implementação de uma agenda de Educação Ambiental em Pernambuco. Ela destacou a falta de continuidade das ações iniciadas, a falta de recursos humanos e financeiros, a inexistência da vontade de decisão e os desconhecimentos e equívocos cometidos que atrapalham a execução da educação.
Por fim, o também docente Fábio Pedrosa também elencou os desafios, mas, dessa vez, interligando os obstáculos às mudanças climáticas, tema central nas discussões ambientais atualmente. Ele contextualizou a temática à realidade vivenciada pelos pernambucanos, em especial os residentes do Recife. Enfatizando que a capital do estado é a 16ª área urbana mais vulnerável às mudanças do clima no mundo, pontuou que parte da preparação para a atenuação dos efeitos dessas modificações climáticas passa pela sensibilização da população e da adoção, em larga escala, da Educação Ambiental como ferramenta de mudança.
“Nós vemos pensando na implementação da educação ambiental aqui no Estado, no fortalecimento da CIEA e de como podemos fazer para que a política e o programa de educação ambiental realmente sejam efetivos. Esse seminário é um primeiro passo que a gente está construindo junto com todos vocês. Ele é somente uma das ações da Semana da Educação Ambiental que estamos promovendo”, acrescentou Lays.
Nosso seminário foi muito rico de conhecimento. A nossa ideia foi perpassar o passado, o presente e o futuro da educação ambiental aqui no estado, desde os marcos históricos da construção da educação ambiental, quais os desafios que enfrentamos atualmente para a educação ambiental e quais as perspectivas para o futuro, para que realmente a política e o programa sejam efetivos. E se essa implementação efetiva é possível, é porque a gente trabalha em conjunto”, encerrou.
O Seminário segue para um segundo e último dia de programação nesta quarta-feira (7), também no auditório do Campus Recife do IFPE.
