Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Política pode ter um impacto significativo ao propor um reordenamento na cadeia de produção, dando um enfoque maior na destinação de cada um dos resíduos gerados

O modelo industrial de fabricação de produtos classificado como ‘tradicional’, que ganhou ainda mais impulso na década de 1970 e impera mundialmente, tem sido responsável pelo aumento exponencial dos resíduos gerados. Conhecido por focar apenas na extração, fabricação e no lucro proveniente desses produtos, esse modelo não possui uma preocupação com a destinação final dos resíduos gerados em toda a cadeia e, por isso, intensifica o processo de desequilíbrio ambiental causado por esse descarte. 

Essa realidade ganhou ainda mais respaldo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado em 2021. De acordo com a pesquisa, a estimativa é que o planeta sofra um aumento de quase 56% na geração de resíduos de 2023 a 2050, explicitando a emergência de uma reorganização global nesse quesito. É dentro desse contexto que o conceito de ‘Resíduo Zero’ vem ganhando terreno na área socioambiental para tentar pavimentar um novo caminho tanto para a geração quanto para destinação de resíduos sólidos em todo o globo.

Segundo Monaliza Andrade, gerente técnica de resíduos sólidos da Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha de Pernambuco (Semas-PE), a definição de Resíduo Zero, que vem ganhando robustez, está voltada a uma reorganização do ciclo produtivo dos resíduos, dando ênfase na destinação final.

“Resíduo Zero é um conjunto de ações que visam a não destinação de resíduos para aterros sanitários, excluindo os de saúde e perigosos. Essa política tenta reduzir a geração de resíduos e aumentar ao máximo o seu aproveitamento para que esses resíduos não sigam para esses aterros ou sejam incinerados”, explica.

Monaliza ainda destacou o conceito de ‘economia circular’, que dialoga diretamente com a definição de Resíduo Zero. Segundo ela, esse tipo de economia considera que o resíduo deve ‘circular’ pela cadeia produtiva, sendo reintegrado e reaproveitado no processo diversas vezes e, assim, evitando que seja despejado em locais inadequados.

“A economia circular considera que um resíduo, depois de gerado, retorne para o ciclo produtivo tanto do mesmo produto quanto de outro. Com isso, estamos reciclando ou reaproveitando o resíduo. Por isso, podemos considerar que o Resíduo Zero está ligado à economia circular por também defender que os resíduos não sejam dispostos em aterros sanitários”, ressaltou.

Ambos os conceitos, como Monalisa também destacou, se alinham diretamente com as ações 11 e 12 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pelas Nações Unidas na chamada Agenda 2030. Os dois objetivos, sendo o 11 “tornar cidades e assentamento urbanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis” e o 12 “garantir padrões de consumo e produção sustentáveis”, se alinham com a importância da conscientização de ferramentas como a coleta seletiva para a destinação correta dos resíduos e o retorno deles para ciclo produtivo.

O Resíduo Zero no Brasil e em Pernambuco

Mesmo com a implementação da política do Resíduo Zero sendo cada vez mais necessária em todo o mundo, os países e as diferentes localidades não podem, considerando as disparidades socioeconômicas de cada região, utilizar um padrão linear para a estruturação dessa política. Monalisa frisa que, segundo ela, o melhor caminho para o Brasil e Pernambuco estabelecerem essas diretrizes perpassa pela ampliação do sistema de coleta seletiva.

“Se formos considerar a realidade do Brasil e de Pernambuco, o ponto principal é o incentivo à coleta seletiva. Esse incentivo passa pelos municípios, já que muitos deles não sabem por onde começar, e pelo apoio às assessorias técnicas de cada um. Tudo isso, claro, alinhado a um trabalho de conscientização com a população”, destacou a gerente técnica de resíduos sólidos.

A fala de Monaliza acompanha um dado crucial presente no relatório divulgado pelo PNUMA. O Brasil é o maior produtor de resíduo plástico da América Latina, com quase 500 bilhões de itens gerados. Desse montante, apenas 9% é reciclado, 17% é incinerado, quase metade (46%) é descartado em aterros sanitários e cerca de 22% nem chega a ser recolhido, tornando a destinação de resíduos um dos principais problemas ambientais do país.

O impacto dessa reestruturação na economia mundial

Segundo o Relatório de Lacuna de Circularidade da América Latina, ligado à PNUMA, adotar estratégias para a implementação da Economia Circular e de Resíduo Zero, além de trazer benefícios para o meio ambiente, pode impulsionar a economia mundial, especialmente a dos países em desenvolvimento. 

Globalmente, se essas políticas passassem a ser prioridade pelos governos, mais de 8,5 milhões de empregos de forma direta e indireta poderiam ser criados. No Brasil, os postos de trabalho gerados poderiam atingir a marca de 800 mil, impulsionados pelo aumento da demanda das associações e redes de catadores e pela produção de biogás, elemento gerado através do reaproveitamento energético de resíduos orgânicos, como uma das alternativas para a destinação desses resíduos