Estudo procurou entender os impactos das mudanças climáticas na vida dos fungos encontrados em toda a região do Neotrópico, que engloba grande parte do continente americano

Um estudo vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos (PPGBF), do Centro de Biociências (CB) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisou sobre a interferência das mudanças climáticas na distribuição de duas espécies de fungos decompositores de madeira na região do Neotrópico, que compreende o sul dos Estados Unidos, partindo do extremo sul do estado da Flórida, a América Central e do Sul. O estudo constatou que a temperatura e o índice de precipitação são os principais fatores para a permanência e proliferação desses fungos no meio ambiente.

Publicado em setembro de 2023 na renomada revista Acta Botanica Brasilica, o estudo foi conduzido por Danilo Chagas, doutorando do PPGBF, e Ailton Avelino, biólogo pela UFPE, além de contar com a orientação dos professores Renato Alvarenga e Tatiana Gibertoni, ambos do Departamento de Micologia da universidade. A pesquisa se debruçou sobre a distribuição de duas espécies de fungos decompositores: a Auricularia brasiliana e a Megasporoporia neosetulosa. Esses fungos são fundamentais para a manutenção e fortalecimento do ciclo de carbono no meio ambiente, potencializado e fortalecido com a decomposição de madeira realizada por esses fungos. 

O estudo utilizou o método de ‘modelagem ecológica’, amplamente utilizado pelos pesquisadores da ecologia para auxiliar na previsão da distribuição futura de espécies e populações de um determinado nicho ecológico. Os resultados encontrados confirmam a suspeita da equipe de que as mudanças climáticas trazem impactos negativos para ambas as populações de fungos. O principal fator para a diminuição na distribuição é a discrepância entre as temperaturas e os ciclos de chuvas, que são fortemente influenciados pelas mudanças no clima.

“Os resultados indicam que temperatura e precipitação influenciam fortemente a ocorrência das espécies e que, desse modo, mudanças no clima podem diminuir a ocorrência delas”, afirmou a professora Tatiana Gibertoni.

A pesquisa estabeleceu dois parâmetros para avaliar a distribuição futura das duas espécies de fungos. Além da situação atual, o estudo classificou esses cenários futuros como ‘otimista’, que apenas leva em consideração os impactos mínimos do clima sobre as duas espécies, e ‘pessimista’, que considera um cenário de maior impacto e próximo à irreversibilidade. No cenário mais otimista, a Auricularia brasiliana, que atua mais no Brasil, não sofreria uma grande redução na sua distribuição, continuando com uma grande incidência no leste do México, Caribe, América Central e do Sul, especialmente no Brasil, Peru e Bolívia. No cenário mais pessimista, o fungo perderia incidência em toda a América do Sul, principalmente no Norte e Centro-oeste do Brasil, além de reduções consideráveis na América Central.

O resultado mais alarmante obtido pelo estudo é referente à Megasporoporia neosetulosa. No cenário menos preocupante, essa espécie deixaria de atuar em praticamente todo o território da Nicarágua, El Salvador e Guatemala, toda a região norte do Brasil e central do México. Essa redução é ainda mais exorbitante se considerado o cenário pessimista, no qual o fungo perderia distribuição total em metade do território brasileiro e em todo o Peru e a Bolívia, reduzindo a área populacional da espécie pela metade na América do Sul.

“Foi observado que, mesmo para o cenário otimista, há uma redução de habitats climaticamente adequados para ocorrência de ambas espécies. Com isso, dialogamos com a necessidade de ações que priorizem a conservação destas áreas”, destacou o professor Renato Alvarenga.

Para saber mais detalhes da pesquisa, acesse https://www.scielo.br/j/abb/a/3W9MYv4SyZqFSg8Hg6nLhNv/?lang=en.