A iniciativa debateu a participação das mulheres na construção de políticas para a garantia de direitos nos territórios quilombolas e a preservação do meio ambiente

Protagonismo e Resistência na Garantia de Territórios Sustentáveis foi o tema da roda de debate virtual organizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas/PE), nesta terça-feira, 27, em comemoração Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado em 25 de janeiro. Realizado por meio do Núcleo de Cidadania Ambiental e Comunidade Tradicionais da Semas, o encontro online teve como foco as mulheres quilombolas, os territórios nos quais estão inseridas e sua participação na preservação ambiental e construção de políticas. O debate, transmitido pelo youtube da Semas, trouxe um rico painel de experiências a atuações de lideranças quilombolas no estado.

“Esta pauta da igualdade de gênero caminha junto com a da sustentabilidade, estando posta como um dos objetivos de desenvolvimento sustentável definidos pela Conferência da ONU: a ODS de número 5. Alcançar a igualdade de gênero, empoderar todas as mulheres e meninas, garantir essa igualdade no acesso à propriedade, no controle dos recursos econômicos, nos meios políticos é fundamental. E é importante entender que esta pauta faz parte de um acordo internacional do qual o Brasil é signatário e todos os entes federativos precisam se comprometer: a União, estados e municípios”, ressaltou a Secretária de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Semas em exercício, Inamara Mélo, que a abertura do evento.

O evento, coordenado por Gabrielle Conde – integrante do Núcleo de Cidadania Ambiental e Comunidades Tradicionais da Semas – contou com a explanação de duas lideranças quilombolas que abordaram pontos importantes de suas experiências no território. A primeira explanação ficou a cargo de Anacleta Pires – escritora, coureira, educadora popular, formada em pedagogia da terra pela UFMA. Anacleta é liderança do território quilombola de Santa Rosa dos Pretos, no município de Itapecuru-Mirim (MA).

A segunda palestrante da mesa virtual foi Maria Antônia (Piabinha) – pedagoga, historiadora e expansionista rural. A convidada é liderança quilombola da comunidade de Poço Dantas, localizada no município de Inajá (PE). Maria Antônia também é coordenadora da Federação dos Quilombos e Povos Tradicionais de Pernambuco.

Em sua abordagem, Anacleta trouxe à luz a questão da ancestralidade e a força das mulheres que antecederam a luta das atuais gerações em territórios indígenas e quilombolas. Pontuou que no cenário de hoje é preciso fazer a desconstrução das diversas mazelas que atingem o público feminino. Segundo a pedagoga, muitos dos homens deixam de cultivar o ‘ser’ para cultivar o ‘ter’ passando a imprimir esta atitude em todas as relações em sociedade e o reflexo deste tipo de comportamento pode ser observado em situações de violência para com as mulheres.

A liderança destacou ainda a importância da construção de redes de fortalecimento e proteção para que se possa garantir territórios de sustentabilidade a partir do empoderamento de cada mulher e da troca de experiências.

Maria Antônia, afirmou que quando se fala em território e sustentabilidade muitos seriam os desafios para as mulheres das comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas, ciganas entre outras. Em sua fala, a liderança relatou episódios de muitas perseguições além de ataques aos territórios. Pontuou também as dificuldades enfrentadas em razão do preconceito de cor e de gênero. Ressaltando a importância das mulheres negras ocuparem, cada vez mais, espaços sociais e na vida pública, Maria Antônia destacou ainda a relevância da participação feminina na elaboração de propostas e projetos para a comunidade, a exemplo de uma iniciativa de agricultura sustentável que contou com sua contribuição e teve acolhida do poder público.

Segundo Gabriela Conde é difícil construir políticas públicas para estes territórios com garantia efetiva da propriedade tanto por conta de embates com grandes proprietários como pelo desmonte das políticas de proteção ao território que se tem experienciado na atual conjuntura política. Por isso, conforme Gabriela, a importância de sempre de fomentar o diálogo e discutir a questão em diversos espaços.

“A principal forma de conter, resistir, reivindicar, esse direito ao território é feito via as associações e sobretudo pela força das mulheres que compõem esses espaços. As mesmas que estão falando do sobre relações espirituais, ancestrais, são as mesmas que estão dentro do espaço da associação reivindicando as políticas públicas. E é difícil construir políticas públicas para estes territórios. Mas, é fundamental que a gente continue e entenda como nós e a gestão pública podemos atuar de forma conjunta para a construção de políticas que garantam os direitos e a preservação do nosso patrimônio que é o meio ambiente”, destacou.