A criação da Reserva Extrativista (Resex) do Rio Formoso é uma antiga reivindicação da comunidade pesqueira do litoral sul de Pernambuco junto ao Governo Federal e que, diante das dificuldades nas tratativas, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade incorporou para discussão no âmbito do Programa UC Pernambuco. Dando continuidade ao processo de criação da reserva, nesta segunda-feira (27/06), a equipe Semas – junto com pescadores, pesquisadores e comunidade local que utiliza a área – realizou uma visita técnica para avaliar as potencialidades, os limites e a área onde será demarcada a Resex. Esta será a primeira Reserva Extrativista de Pernambuco, composta por cerca de 2.615 hectares de manguezal, onde quase 2.500 famílias vivem da pesca artesanal, incluindo comunidades quilombolas.

“O objetivo desta missão de hoje foi vistoriar as áreas que foram propostas para a criação da Resex para poder avaliar e analisar os possíveis conflitos dos impactos que esses limites poderão causar. Trata-se de uma Área de Proteção Ambiental que com a criação da Resex irá permitir outros tipos de uso. Então é preciso avaliar os impactos positivos, que são muitos, e os impactos negativos que esta ação poderá ocasionar. A Reserva Extrativista tem uma característica de dar uma maior proteção à área, tendo em vista que existem espécies em extinção como cavalo-marinho, peixe-mero e outras espécies que precisam de uma proteção maior. Além disso, é uma área de povos tradicionais quilombolas e de comunidade pesqueira”, explica Ana Célia Garcia, analista ambiental da Semas PE.

A criação da Resex do Rio Formoso está sendo considerada uma importante estratégia de conservação dos recursos naturais vinculados ao manguezal na região. Para a proposta de criação da Resex Rio Formoso, estão sendo levados em consideração estudos já existentes sobre a área apresentados pelo Grupo Pró-Resex, a instrução normativa que cabe ao processo de legalidade e o diagnóstico do Agrupamento Litoral Sul, que envolve a APA Estuarina do Rio Formoso, APA de Guadalupe, APA de Sirinhaém, APA Marinha Recifes Serrambi, APA Estuarina do Rio Carro Quebrado, APA Estuarina dos Rios Sirinhaém e APA de Maracaípe. A previsão é que até agosto esta proposta seja apresentada ao Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema PE).

“Esse espaço será muito importante para os pescadores nativos, que pescam peixes e colhem frutos; para a proteção de animais como peixe-mero, aqui também é abrigo de raposas, ariranhas, lontra, guaxinim, guaiamum, caranguejo-uçá, a área também abriga quatro manguezais; e para o turismo de base comunitária sustentável”, ressalta Moacir Correia, da Comunidade Quilombo Engenho Siqueira.

Seu Neco é pescador, vive na região há 50 anos e relata a importância da conservação da região: “É um local que deve ser preservado, tem famílias de pesca que vivem aqui, passam três quatro dias juntando caranguejo, crustáceo e molusco para vender na feira para complementar a renda. E eu venho muito aqui pegar caju, mangaba, água. É um local muito importante para os pescadores e um lugar de preservação”.

“Não só para nós que fazemos parte da colônia, mas para toda a comunidade, pescadores, que sempre fizeram desta área uma fonte de renda, com caju, mangaba e outros frutos. É uma história que temos que passar para os nossos netos, filhos e turistas. Acho que é muito relevante a preservação da área, que o governo se sensibilize para não deixar que seja desmatado e que vá embora a nossa cultura, nossa história, para que se mantenha vivo isso aqui, onde nós possamos trazer os turistas, o turismo ecológico, para mostrar e falar da nossa cultura e vivência nessa área”, complementa o pescador Francisco Santos, representante da Colônia Z-07.

“Essa iniciativa é muito importante porque a gente vê figuras da comunidade com o conhecimento muito amplo, então o uso desse conhecimento ecológico local vem para fortalecer esse processo de criação da Resex e estamos aqui com pessoas muito sábias que conhecem bem a região, então ninguém melhor que essas pessoas para guiar a gente e contar a história dessa região”, destaca André Campos, do Projeto Meros do Brasil.

Pernambuco possui atualmente 90 Unidades de Conservação, das quais 74 são geridas pelo Estado. A Semas lançou, em abril de 2021, o programa UC Pernambuco, o maior conjunto de estudos ambientais em áreas remanescentes de Mata Atlântica e Caatinga do Estado. A iniciativa está beneficiando 47 Unidades de Conservação (UCs) estaduais com pesquisas e/ou planos de manejo. Os trabalhos abrangem um território de 243,6 mil hectares e devem ser concluídos até janeiro de 2023.

Fotos: Allan Canuto/ Semas PE