A ação é só um começo para um conjunto de medidas que visam a valorização do trabalhador de resíduos sólidos, o incentivo à coleta seletiva e à reciclagem

Pernambuco tem uma meta ambiental bem definida para os próximos anos: neutralizar a emissão de carbono no estado até 2050 como medida de antecipação e enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas. O setor de resíduos sólidos faz parte dos eixos políticos que estão sendo trabalhados. O encerramento dos lixões e o incentivo à coleta seletiva e à reciclagem são algumas das medidas que estão sendo colocadas em prática. Dentro desta estratégia, os catadores de materiais recicláveis atuantes na Região Metropolitana do Recife começaram a receber kits de proteção individual para utilizarem nos trabalhos diários. A primeira entrega aconteceu no bairro de Jardim Atlântico, em Olinda, na última segunda, 28, com a presença do secretário estadual de Meio Ambiente, José Bertotti, numa parceria com a cooperativa Coocencipe. Depois aconteceu uma entrega no bairro do IPSEP, no Recife. Profissionais de outras comunidades como Vila Santa Luzia e Iputinga, e de outras cooperativas no estado com articulação da CUFA (Central Única das Favelas), serão beneficiados ainda esta semana. Os catadores e catadoras estão recebendo calças, toucas, pares de botas, pares de luvas, além de máscaras e protetores faciais. Ao todo, serão entregues 800 kits. Além dos materiais doados pela SEMAS, a Coocencipe realizou também a doação de 10 carroças.

José Bertotti na distribuição de kits de proteção para catadores de recicláveis em Olinda

“Os catadores são os maiores prestadores de serviço ambiental do Brasil, mas ao mesmo tempo são aqueles menos favorecidos. Estamos trabalhando na logística reversa para valorizar todos os atores da cadeia e estes são os profissionais que merecem maior atenção, são os que estão na ponta, prestam um serviço ambiental de maneira decisiva e são os que se expõem mais”, ressaltou o secretário José Bertotti. Para a catadora Amanda Barboza, de 31 anos, mãe de Adriele, o kit veio em um bom momento. “Esse material é importante na hora que a gente for trabalhar, para se prevenir de doenças como leptospirose, tétano. A gente se protegendo pode trabalhar melhor, continuar tirando mais poluição do mundo, dos rios, esgotos, dos bueiros. Se a gente recicla, evita de materiais irem para os rios e bueiros, evita que gere alagamentos e outros danos. A gente trabalha para ajudar a mudar o mundo”, disse Amanda que trabalha há 15 anos na catação de materiais recicláveis.

A catadora Amanda Barboza, mãe de Adriele, trabalha há 15 anos com recicláveis

Parte do material doado aos catadores veio da campanha de arrecadação de EPIs para a ação de enfrentamento ao óleo que invadiu as praias do estado em 2019. Os materiais excedentes estavam armazenados e agora estão sendo distribuídos para os trabalhadores. O secretário José Bertotti falou ainda que este é só um início de um processo de valorização do trabalho dos catadores e que o Governo de Pernambuco, com base na política nacional de resíduos sólidos, pretende elaborar um decreto que regulamente a exigência de que as empresas e indústrias que produzem embalagens que atuam no estado remunerem os catadores que recolhem os resíduos dos produtos fabricados que são consumidos e posteriormente descartados no ambiente. “Com isso, essas empresas vão ter que remunerar o trabalho destes profissionais, porque além de venderem o peso do plástico, o peso do papel, o peso do metal, que tem o valor de uso, tem o serviço ambiental que prestam: fazer a retirada do material da natureza. E este serviço quem tem que fazer são eles. Se eles não fazem, vão ter que pagar por isso. Não é uma ideia da minha cabeça. Isso está na regra, a gente precisa só organizar esta regra aqui”, conclui Bertotti.

O Secretário Bertotti com Luiz Mauro e Edileide Amaral, responsáveis pela Coocencipe

Luiz Mauro é coordenador da Coocencipe, trabalha há duas décadas com coleta de recicláveis e recebeu o representante da SEMAS na cooperativa. “Há vinte anos que eu não vejo uma movimentação tão rápida como a que está acontecendo neste momento, todo mundo se mobilizando da sua melhor maneira, o governo se articulando, o secretário de Meio Ambiente querendo dar tudo o que tem, isso para nós da cooperativa Coocencipe é fundamental. Antes das cooperativas, era todo mundo desconhecido, ninguém conhecia ninguém, cada um fazia por si mesmo. Hoje o catador que é um cooperado nosso ele tem seu INSS pago, tem o seu salário mensal. Hoje temos aqui duas universitárias, filhas de catadoras que trabalham aqui para pagar a suas universidades. Isso é um orgulho para a nossa cooperativa”, disse Mauro.

José Bertotti e Edilson Silva visitando a cooperativa Coocencipe, em Olinda

Fotos: Lu Rocha/Semas PE