Conheça o que Pernambuco está fazendo pela descarbonização. Uma abordagem intersetorial para combater as mudanças do clima.

Para nós, mitigação e adaptação são prioridade. 

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Conheça o plano de descarbonização de Pernambuco no Brasil

Muito prazer, somos Pernambuco 

Em seus mais de 98 mil quilômetros quadrados, Pernambuco é um dos estados do nordeste do Brasil com maior diversidade cultural e geográfica. Pernambuco se estende do Oceano Atlântico ao sertão, com cobertura vegetal que vai da floresta atlântica do litoral à caatinga do sertão passando pela zona da mata e pelas serras e chapadas. O arquipélago de Fernando de Noronha, também é parte do território pernambucano. Em Pernambuco estão 89 unidades de conservação estaduais e 11 unidades de conservação federais. Em Pernambuco vivem mais de nove milhões de pessoas, cerca de 5% da população brasileira. Pernambuco é considerado o berço de diversas manifestações culturais, como o frevo, maracatu, o coco, o manguebeat, a cerâmica e o cordel. No estado, existem sítios arqueológicos datados de mais de 40 mil anos. Há reminiscência de quilombos e quilombolas e cerca de 40 mil indígenas que habitam a região. Do ponto de vista econômico, Pernambuco abriga destacada presença da indústria petrolífera, um parque de inovação em tecnologia da informação e rica produção de frutas tropicais às margens do Rio São Francisco. Toda essa riqueza de pessoas, de culturas, de natureza e de produtividade é vulnerável ao aquecimento global. No campo, o clima é quente e seco, ameaçado por um processo contínuo de desertificação. A capital, Recife, que fica no litoral e é repleta de rios e canais, foi considerada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas do mundo. As vulnerabilidades do estado brasileiro de Pernambuco colocaram as mudanças climáticas no centro da sua agenda política e esforços estão sendo somados para construir uma nova história.

 


 

Descarbonização: ciência, ação intersetorial integrada e compromisso

Pernambuco está comprometido com estabelecer uma estratégia de mitigação e zerar emissões até 2050. O Plano de Descarbonização para Pernambuco está alinhado aos compromissos de emissão zero assumidos pelo Brasil.

O Brasil apresentou suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) em 2020 comprometendo-se a reduzir as emissões líquidas de carbono em 43% até 2030 e zerar as emissões até 2060. Durante a Cúpula do Clima (abril de 2021), o governo brasileiro anunciou o compromisso – ainda não-oficializado – de ser net zero até 2050, 10 anos antes do prazo previsto. Para serem alcançados, os compromissos nacionais requerem intenso envolvimento dos entes subnacionais, das corporações e de toda a sociedade. Pernambuco se orgulha de contribuir para a agenda climática e reforça seus compromissos com a descarbonização e a política nacional do clima.

Estabelecido com bases científicas sólidas, o plano está sendo construído a partir de uma visão integrada dos desafios e potencialidades do estado e estabelece compromissos ambiciosos.

O Plano de Descarbonização: status e próximos passos 

Etapa atual: Modelagem de cenários de linhas de base e de descarbonização, construída através da integração de modelos econômico e tecnológico. Foram usados modelos analíticos de avaliação integrada, incluindo otimização energética e ambiental e equilíbrio geral computável da economia.

Próximas etapas: Priorização e hierarquização, através de análise multicritério, das ações elencadas pela modelagem integrada para a descarbonização do estado, análise de barreiras para a implementação das ações de descarbonização, consolidação do Plano de Descarbonização com metas de curto, médio e longo prazo (2050), incluindo estratégias para seu monitoramento e avaliação. O Plano deverá ser lançado em fevereiro de 2022.

Resultados já alcançados: Foram identificadas as ações mais custo efetivas para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) nos setores de Uso do Solo, Energia, Transporte e Resíduos Sólido em Pernambuco.

Quais são as principais medidas de descarbonização para Pernambuco?

1 – Eliminação gradual do desmatamento com restauração de vegetação nativa 

2 – Produção de biocombustíveis para meios de transporte difícil transformação, como transporte rodoviário por caminhões, transporte de containers e aviação 

3 – Eletrificação de veículos leves

4 – Expansão da capacidade de produção de energia a partir de fontes renováveis 

5 – Recuperação energética de biogás de aterros 

6 – Implantação de captura e armazenamento de carbono

 


 

Como o Plano está sendo construído?

Dados científicos sobre o perfil das emissões de gases de efeito estufa formaram a base do Plano. Atuação sinérgica de três equipes temáticas, formadas por pesquisadores e especialistas que trabalham com: pesquisas em modelagens de cenários e medidas propositivas, modelagem socioeconômica, análise de políticas e barreiras. Consulta e validação com a sociedade civil – participação ativa do Fórum Pernambucano de Mudança do Clima. Coordenação técnica para garantir integração e visão sistêmica. Geram: medidas por setor e trajetórias de transformação (que culminarão com) uma nova história para Pernambuco e para o Brasil.

Consistência metodológica: O papel de Pernambuco para que o Brasil cumpra suas NDCs e se torne carbono neutro Mudanças climáticas são globais e requerem soluções globais. Estudos com modelos globais e regionais de avaliação de estratégias de mitigação e desenvolvimento tecnológico conseguem entender o papel de cada região no enfrentamento das mudanças climáticas. Seguindo a mesma lógica, a neutralidade climática de um estado talvez não seja a solução ótima para o país, pois alguns estados têm maior dependência de atividades econômicas carbono-intensivas, enquanto outros estados possuem oportunidades de obter diversos co-benefícios com a recuperação, captura e armazenamento de carbono. Para elaborar o Plano de Descarbonização de Pernambuco, as equipes de trabalho consideram: 

  • o papel do Brasil na descarbonização mundial
  • o papel da região Nordeste nas projeções de demanda e potenciais medidas de mitigação para a região 
  • a situação de Pernambuco, determinada a partir do refinamento das informações com foco no estado Metodologia posicionou o estado nos contextos regional e nacional, garantindo consistência com as políticas e planos existentes.

 

Um plano de descarbonização para Pernambuco

  • A grande vulnerabilidade climática de Pernambuco pôs a mudança climática como elemento central da agenda política do estado.
  • Um plano de descarbonização está sendo construído para Pernambuco, alinhado a uma perspectiva de emissão líquida zero para o Brasil em 2050 
  • Acabar com o desmatamento restaurando vegetação nativa, produzir biocombustíveis para modais de transporte de difícil descarbonização, eletrificar veículos leves, expandir a geração elétrica renovável, capturar biogás de aterros sanitários e desenvolver a captura e armazenamento de carbono são as principais medidas apontadas para Pernambuco. 
  • Estas medidas desafiadoras requerem forte colaboração em nível nacional e internacional para superar as diversas barreiras de ordem técnica, econômica, financeira, cultural, educacional e institucional.

 


 

Principais estratégias para a descarbonização de Pernambuco

Pernambuco, situado no Nordeste do Brasil, é um estado conhecido por suas ricas tradições culturais decorrentes da diversidade de seu povo. A diversidade também está presente no clima de Pernambuco. A zona costeira do estado é quente e úmida e ocupada por grandes extensões de plantações de cana-de-açúcar. Já o interior apresenta um clima quente e seco, ameaçado por um processo contínuo de desertificação. A capital do estado, Recife, concentra cerca de 3,7 milhões de habitantes em sua região metropolitana, sendo a 6ª região mais populosa do Brasil e a 1ª da região Nordeste. A cidade está localizada ao nível do mar e é popularmente apelidada de “Veneza brasileira”, devido à sua paisagem repleta de rios e canais de água, e foi apontada em 2007 pelo IPCC como a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas. Portanto, os efeitos da mudança do clima podem ser particularmente devastadores para Pernambuco. Esta vulnerabilidade trouxe o clima para o centro da agenda política de Pernambuco. A fundação de um Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, em 2009, e o estabelecimento por lei de uma política estadual de enfrentamento às mudanças climáticas, em 2010, foram os primeiros passos. Mais recentemente, em 2019, Pernambuco lançou seu primeiro Inventário Estadual de Gases de Efeito Estufa, para melhor compreender seu perfil de emissões e identificar onde atuar na mitigação. E hoje o estado atua na elaboração de seu Plano de Descarbonização que consolidará uma estratégia para Pernambuco reduzir suas emissões e contribuir para evitar o aumento do aquecimento global e suas consequências. Para desenvolver uma estratégia de mitigação eficaz em nível subnacional, alinhada e integrada com o contexto regional e federal, Pernambuco está utilizando a melhor ciência de modelagem de avaliação integrada de longo prazo disponível no Brasil. Uma equipe multidisciplinar de profissionais está trabalhando para encontrar soluções custo-efetivas que possam ser implementadas para reduzir as emissões no Estado. Uma contribuição efetiva de Pernambuco requer um planejamento integrado de ações de mitigação para os setores de energia e uso do solo até 2050, com metas de curto e médio prazo. Em primeiro lugar, reduzir o desmatamento e recuperar a Mata Atlântica e a Caatinga é essencial. O aumento da produtividade agrícola, a intensificação das pastagens e a implementação de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta podem fornecer a área necessária para essa recuperação dos biomas. Essas medidas também abrem espaço para o cultivo de biomassa sustentável, visando a produção de biocombustíveis no estado. Os biocombustíveis são relevantes para o setor de transportes, especialmente para a aviação e para o transporte de carga de longa distância, considerados difíceis de descarbonizar via eletrificação. As emissões de veículos leves são reduzidas principalmente por meio da eletrificação da frota. O alto potencial dos recursos solares e eólicos no estado aponta um papel importante para Pernambuco na geração de energia renovável para descarbonização do sistema interligado nacional de eletricidade. Aproveitar o biogás de aterros sanitários também é uma estratégia a ser considerada para a descarbonização do estado. Por fim, a captura e armazenamento de carbono se mostra como alternativa essencial para a redução das emissões dos processos industriais e na obtenção de emissões negativas quando associadas à bioenergia (BECCS) no longo prazo.

Um ambicioso plano de descarbonização intersetorial para Pernambuco apresenta múltiplos desafios para cada ação proposta. Transferência de tecnologia, financiamento, educação/treinamento e regulamentação são alguns dos desafios que devem ser enfrentados. E só poderão ser superados através de parcerias com todos os setores, com uma ação/estratégia multiator e multinível e com o apoio da comunidade global.

 


 

 

Desafios e oportunidades

1 – Mudanças do Uso da Terra

Controlar os impactos humanos negativos nas áreas dos biomas naturais de Pernambuco, Mata Atlântica e Caatinga é fundamental para a estratégia de descarbonização do estado. A recuperação desses ecossistemas pode remover 38 milhões de toneladas de CO2 até 2050, além de garantir o fornecimento de serviços ambientais essenciais, ao mesmo tempo que conserva esses ecossistemas. Isso requer ação política para reduzir a pressão socioeconômica sobre as áreas naturais, sobretudo por meio de monitoramento do desmatamento, capacitação e promoção de boas práticas para aumentar a produtividade da agricultura e da pecuária.

2 – Biocombustíveis – tradição e futuro 

O Brasil é tradicionalmente um grande produtor de biocombustíveis no mundo, principalmente por causa de sua indústria de etanol de cana-de-açúcar. Embora a maior parte da cana-de-açúcar brasileira seja hoje produzida na região Sudeste, a cultura foi introduzida no país pela primeira vez em Pernambuco, ainda no século XVI. Essa tradição da bioenergia pode ser empregada em prol da implantação de uma produção sustentável de outros biocombustíveis, em particular o diesel verde e os combustíveis verdes para aviação. Esses biocombustíveis são as melhores opções para o Brasil descarbonizar os setores de transporte pesado, considerados de difícil descarbonização.

A síntese Fischer-Tropsch é identificada como uma rota de interesse, com potencial para produzir até 800.000 m³ de diesel verde (para caminhões) e 500.000 m³ de bioquerosene (para aviação) por ano a partir de matérias-primas de biomassa residual em Pernambuco em 2050. A produção de biocombustíveis deve contar com ação política principalmente para garantir um abastecimento sustentável de biomassa e para estabelecer parcerias nacionais e internacionais a fim de desenvolver e transferir tecnologias de biorrefino.

3 – Eletrificação com energia renovável

A eletrificação de veículos leves é uma tendência observada em todo o mundo. É a principal medida de descarbonização do transporte rodoviário de passageiros em Pernambuco, capaz de evitar a emissão total de 22 milhões de toneladas de CO2 até 2050. Para tanto, há desafios que exigem ação política, como o desenho e implantação de uma infraestrutura de abastecimento de energia elétrica para veículos e adequações na rede elétrica para os novos perfis de carga. Além disso, para um impacto real de mitigação, o fornecimento de energia elétrica deve ser por fontes renováveis. Como Pernambuco possui um destacado potencial sustentável de recursos solares (730 GW) e eólicos (60 GW), os investimentos para aumentar a capacidade de geração de energia elétrica do estado são de grande importância no processo de descarbonização. 

4 – Biogás – energia a partir do lixo

A gestão de resíduos pode ser considerada um problema social, sendo parte dos resíduos sólidos gerados ainda destinados a lixões. Felizmente, esse panorama está mudando, com maiores participações de resíduos sendo destinados de forma adequada a cada ano em Pernambuco. Em termos de emissões de gases de efeito estufa, os resíduos são uma importante fonte emissora no estado e, como os aterros sanitários produzem relativamente mais metano do que os depósitos de lixo, essas emissões tendem a se tornar mais representativas com o passar dos anos. Assim, a principal estratégia para reduzir as emissões no setor de resíduos de Pernambuco é a captação do biogás dos aterros e também do tratamento de efluentes. Além de reduzir as emissões diretas de metano, esse biogás pode ser usado como energia. A produção de biogás no estado pode chegar a 500 milhões de m³ por ano até 2050. Pode ser queimado para geração de calor e/ou eletricidade ou transformado em biometano, o que permite que seja injetado na rede de gasodutos de gás natural ou aproveitado para geração de hidrogênio nas unidades de processamento da refinaria de petróleo do estado. Isso exigiria implantação e investimento em tecnologias de captação de biogás em Pernambuco, bem como ação política para estabelecer um conjunto de regulamentações adequadas.

5 – Captura e armazenamento de CO2 (CCS) – o desafio necessário

Embora custoso, o investimento em sistemas de captura de CO2 é a medida mais eficaz para a descarbonização profunda de algumas indústrias. A implantação do CCS na produção de aço, cimento, amônia e ferro em Pernambuco é capaz de reduzir a emissão de 4,5 milhões de toneladas de CO2 até 2050. Em particular, o CCS associado à produção de biocombustíveis leva à remoção líquida de CO2 da atmosfera, o que é conhecido como emissões negativas. Estas remoções podem compensar as emissões residuais em outros setores que não poderiam ser facilmente evitadas. Combinar o potencial total de produção de diesel verde e bioquerosene ao CCS leva a um potencial superior a 21 milhões de toneladas de emissões negativas de CO2 por ano em Pernambuco em 2050. O CCS é vital para alcançar a neutralidade climática em 2050 no Brasil, e sua implementação é muito desafiadora. Por exemplo, existe a necessidade de testar e financiar a tecnologia de captura de CO2 nas indústrias e desenvolver uma nova infraestrutura de transporte de CO2 para movê-lo das fontes para os sumidouros. Além disso, reservatórios geológicos adequados de CO2 devem ser determinados, garantindo que o gás ficará lá permanentemente. Outras barreiras, como modelos de negócios para a cadeia de abastecimento de CO2 e marcos regulatórios para as atividades de CCS, atualmente inexistentes em qualquer parte do Brasil, dão uma ideia de quão desafiadora é a implementação de CCS para Pernambuco. Isso somente será possível associando vontade política e engajamento com os principais atores interessados em CCS do mundo.

Como fazer parte e apoiar a implementação do Plano de Descarbonização:

 Estamos estabelecendo medidas desafiadoras e ambiciosas que requerem forte colaboração internacional para superar barreiras técnicas, econômicas, financeiras, culturais, educacionais e institucionais e permitir que os resultados esperados sejam alcançados. Os desafios para a realização de cada medida proposta só poderão ser superados a partir de cooperação e de parcerias, com uma estratégia multiatores e multinível, que conte com apoio da comunidade global. Vamos construir juntos uma nova história para Pernambuco, para o Brasil e para o planeta.