O tema da plenária chamou bastante atenção do público que lotou o principal espaço da conferência, para ouvir sobre o desafio da inclusão produtiva e valorização do trabalho dos catadores de recicláveis no Brasil

A tarde do segundo dia da Cirsol – I Conferência Internacional de Resíduos Sólidos foi marcada pelo painel de discussão “Catadores – O Desafio da Inclusão produtiva e valorização do trabalho”, que aconteceu no auditório do Centro Cultural Cais do Sertão, das 14h às 16h.  O secretário estadual de Meio Ambiente, José Bertotti, participou do encontro junto com Sebastião Carlos dos Santos (Tião), da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), Simone Osias, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Thais Faria (online), oficial técnica em Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho para a América Latina e Caribe; Dione Manetti, CEO da Pragma Soluções Sustentáveis, e José Ismael Lutti, procurador do Ministério Público de São Paulo. A mediação foi da jornalista Beatriz Castro.

Sebastião “Tião” Carlos dos Santos, representante da ANCAT

O debate foi iniciado com uma fala marcante de Sebastião Carlos dos Santos, da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), que primeiramente agradeceu a coordenação do evento e parabenizou Recife e Pernambuco pela conferência: “Em nome do secretário Bertotti, gostaria de agradecer a todo mundo aqui da coordenação, parabenizar Recife por ser protagonista de uma conferência tão importante não somente para o Brasil, o lixo é um problema mundial. E tratar ele de uma forma holística, social, ambiental e econômica é super importante. Por isso a importância de uma conferência como essa, para a gente desmitificar e tratar com devida qualidade e reconhecimento o trabalho dos catadores”.

Em seguida, Sebastião apresentou dados importantes sobre a realidade dos catadores de materiais recicláveis no Brasil. “Todo resíduo que chega na indústria é fruto do trabalho de catadores de materiais recicláveis. Se o Brasil recicla 98% de sua latinha, 57% de sua garrafa pet, é porque os trabalhadores da reciclagem fazem este trabalho. Porém, de que forma? Há muita dignidade em trabalhar com reciclagem, mas a forma de exercer a atividade é muito indigna: 95% dos catadores não trabalham em cooperativas ou em associação, 35% dos catadores estão nos grandes centros urbanos trabalhando de forma precária, insalubre e desorganizada, sofrendo todo o tipo de preconceito e mazela. Os outros 60¨% dos catadores são aquilo que foi minha vida durante muito tempo, dentro dos lixões, muitas vezes isolados na sociedade e sequer vistos, porque os lixões são sempre algo muito distante da cidade para que a gente tenha aquela sensação de que lixo não existe”, enfatizou Sebastião Carlos dos Santos, da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT). Tião informou ainda que “63% dos catadores não são catadores, são catadoras, na sua grande maioria mulheres negras, que é o único sustento da sua família, que é a mesma história da minha família, da minha mãe”.

O secretário Bertotti fala da importância da valorização dos catadores e da logística reversa

O secretário José Bertotti ressaltou que a Cirsol está servindo também como um momento de reflexão sobre os papéis socioambientais e falou sobre a importância da valorização dos catadores e da logística reversa. “Os catadores são os maiores prestadores de serviço ambiental do Brasil, mas quando eu ouço Tião falando, eu vou incorporar uma outra coisa: a mãe dele não optou por ser uma contribuinte pelo meio ambiente, foi a necessidade naquela época que fez ela trabalhar, que fez ela ter Tião como ajudante em várias fases do seu trabalho. A esmagadora maioria dos catadores não estão ali porque querem, estão ali por necessidade e nós estamos aqui numa conferência reunidos para dizer que é com esse modelo de negócio que Tião está aqui agora protagonizando (de cadeia produtiva de logística reserva) que nós podemos gerar emprego e renda e cuidar do meio ambiente. E aí sim, pode optar por ser uma pessoa que trabalha nesse processo da logística reversa e é um trabalho muito digno e muito importante, mas nós precisamos refletir sobre a dignidade desse trabalho”, disse o secretário.

Auditório do Centro Cultural Cais do Sertão durante o debate

Bertotti explicou como a cadeia da logística reversa envolve os atores sociais e faz a diferença na gestão dos municípios e estado. “Eu tenho convicção de que não se fará esse processo da logística reversa sem o profissional que está na ponta, exercitando o processo de separação de resíduo, que evidentemente nós todos precisamos ter consciência que, além das empresas que são responsáveis pelas embalagens, além do governo municipal, que é o responsável e o estado tem procurado apoiar, nós também temos que ter consciência sobre o nosso consumo, sobre o produto como nós estamos entregando para que ele possa ser separado. Lembro inclusive que nós temos aqui alguns eco parques de separação que já estão produzindo biometano para gerar energia, o que está melhorando o custo desses sistemas de coleta e tratamento de resíduos”, explica Bertotti.

Simone Osias, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Thais Faria (que participou em vídeo online), oficial técnica em Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho para a América Latina e Caribe; Dione Manetti, CEO da Pragma Soluções Sustentáveis, e José Ismael Lutti, procurador do Ministério Público de São Paulo também contribuíram com debate ressaltando a importância da sustentabilidade, realização da coleta seletiva, da logística reversa, da valorização do trabalho dos catadores de materiais recicláveis para a sociedade, para as cidades e suas desafios de implementação frente à falta de consciência política, ambiental, falta de apoio do setor privado e a dificuldade de gestão, mas que é possível fazer o caminho certo desde que haja uma força conjunta para que atinja essa evolução.

Fotos: Lu Rocha/Semas PE