Estudos financiados pelo edital Facepe 22/2019 foram apresentados em seminário virtual de resultado, com transmissão pelas redes sociais

Os primeiros resultados das pesquisas sobre os impactos do derramamento de petróleo que atingiu o litoral do estado em 2019 foram apresentados nesta terça-feira (15), pelos pesquisadores Galba Takaki, da Unicap, Antônio Celso Dantas e Jesser de Souza Filho, da UFPE. O webinário – promovido pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) – contou com as participações do secretário de Meio Ambiente, José Bertotti, do presidente da Facepe, Fernando Jucá, do vice-reitor da UFPE, Moacyr Araujo, da assessora Janice Trotte-Duhá (Marinha do Brasil); Djalma Paes (CPRH); além da Beatrice Padovani, do departamento de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco.

De acordo com o secretário José Bertotti, o edital da Facepe representou um compromisso importante do governo com o meio ambiente e a ciência, assim como a exposição dos resultados desses estudos traz novos desafios a serem enfrentados. “Na época, já dizíamos que a crise do petróleo se estenderia por médio e longo prazos e este edital, lançado pioneiramente pelo Estado Pernambuco, além do contato próximo com a academia, tornaria possível um importante encontro entre todas as secretarias de ciência e tecnologia do Nordeste, sob a coordenação do governador Paulo Câmara. A apresentação destes resultados representa o início de uma nova fase de enfrentamento aos impactos causados pelo óleo”, ressaltou.

Já o diretor presidente da Agência Estadual de Meio Ambiente – CPRH, Djalma Paes, afirmou que, durante a crise do petróleo, Pernambuco se destacou por não só atuar junto aos municípios, mas também por garantir uma destinação correta do petróleo retirado das praias. “Apesar de ainda não sabermos quem provocou este dano ao meio ambiente, é preciso dizer que houve um crime ambiental. Para isto, analisando a legislação e os danos causados, calculamos uma multa a ser aplicada quando for apontado o poluidor, além da indenização do Estado de Pernambuco e dos municípios, que aturam na proteção e na limpeza de praias, e no transporte dos resíduos”, afirmou.

Galba Takaki, pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco – Unicap, coordenou o estudo “Avaliação dos impactos ambientais mediados pela contaminação por petróleo no ecossistema manguezal de Rio Formoso”. Ela ressaltou que o objetivo principal da pesquisa é avaliar os danos causados pelo derramamento de petróleo aos estuários, identificando as condições ambientais, a biodiversidade, além de conhecer o potencial biotecnológico dos micro-organismos para auxiliar no processo de biorremediação, visando à restauração e conservação ambiental.

Os levantamentos ficaram paralisados por um bom tempo por conta da pandemia. São 10 etapas previstas pelos estudos, entre os quais estão: levantamento de micro-organismos microbiológicos, micro e macro fauna, floresta de manguezal, ecotoxicologia e filtradores, dentre outros.

As primeiras amostras na área de estudo foram realizadas em março de 2020, em dois pontos do estuário do Rio Ariquindá, que integra o complexo estuarino do Rio Formoso. O manguezal foi escolhido por se tratar de um ambiente modelo para estudos de alterações ambientais, além de abrigar a APA de Guadalupe, unidade de conservação estadual. “Quando o manguezal é contaminado por qualquer tipo de poluição é recomendado o processo de biorremediação – processo biológico para remover contaminantes. Contudo, precisamos avaliar se a microbiota (fauna e flora microscópicas) do local tem condições ou potencial metabólico – produção de enzimas que terão competência de realizar a biodegradação -, transformando o poluente em CO2 e H2O. Esta é ação ideal, considerando que o petróleo ou óleo pesado é cancerígeno”, esclareceu Galba.

“Estamos fazendo nas 25 amostras avaliação tanto da água, quanto do sedimento. Há também levantamentos sobre a micro e macro fauna e a floresta de manguezal, pois o petróleo que se aloja nessa região é de difícil remoção. Estudos globais demonstram que os manguezais precisam ser remediados, por isto, trabalhamos com diferentes meios de cultura para isolamento de bactérias e fungos. Esse processo dura cerca de três anos, então já solicitamos prorrogação do prazo da pesquisa, com conclusão prevista até 2021”, completou a pesquisadora.

Já os resultados apresentados pelo professor e pesquisador da UFPE, Antônio Celso Dantas Antonino, se referem à pesquisa Hidrocarb-mobilis-pe – Hidrocarbonetos: persistência, mobilidade e impacto em solos/sedimentos de estuário/manguezal do litoral de Pernambuco. O objetivo é avaliar os hidrocarbonetos e de seus compostos solúveis no estuário do Rio Massangana, incluindo a área de mangue de Suape. De acordo com os dados do relatório parcial do projeto de engenharia, o foco das ações foram a análise de como se dava o processo de transferência e armazenamento do petróleo na superfície, na interação do oceano com o continente.

Para analisar o “caminho” desses hidrocarbonetos ou HPA – contaminante que causa danos à saúde humana -, a ideia do pesquisador foi levantar dados que pudessem responder as seguintes questões: as tocas de caranguejos ou marinha-farinha podem armazenar óleo proveniente do derramamento de petróleo no mar? Essas tocas podem funcionar como caminhos preferenciais de fluxos de hidrocarbonetos para os aquíferos? Qual a modalidade dos hidrocarbonetos na areia/sedimentos/óleo da praia /estuário e manguezal? Os óleos retidos nas tocas de caranguejo podem atuar como fontes secundárias de hidrocarbonetos?

Foram realizadas amostras com e sem buracos de marinha-farinha em dois pontos da área de estudos, sendo a primeira ainda durante a crise do petróleo, em 19/12/2019, num trecho de praia e de estuário, no Cabo de Santo Agostinho. As análises mais recentes são de novembro passado. “Foram levantadas informações que possibilitem uma modelagem de estudos de materiais reativos no sentido da biorremediação das áreas subterrâneas. Os nossos estudos serão feitos em colunas, de forma a privilegiar a dinâmica da água através desses meios porosos. Como resultados a metodologia analítica e extração de HPA em meio aquoso, além de quantificação destes HPAs nas amostras realizadas em tocas de caranguejo”, ressaltou Antônio Celso.

O terceiro projeto de pesquisa foi apresentado por Jesser de Souza Filho, coordenador do grupo de pesquisa do departamento de oceanografia – DOCEAN, da UFPE. Ele abordou “Os impactos do derrame de petróleo sobre as comunidades biológicas dos ecossistemas costeiros (recifes, estuários e prados de angiospermas marinhas) do litoral de Pernambuco”.

“A nossa proposta nesse projeto foi comparar os dados a serem levantados com os recursos da Facepe, com aqueles que já tínhamos de pesquisas realizadas na mesma região, antes, durante e após a crise do óleo no litoral. Portanto, o objetivo foi realizar uma avaliação desse impacto com uma proposta de estabelecimento de protocolos de monitoramento a médio e longo prazo”, pontuou Jesser Souza Filho.

As áreas de estudo foram o Litoral Norte, abrangendo a Barra de Catuama e o manguezal do Rio Itapessoca, além da área de Atapuz, também naquela região, além dos prados de vegetação marinha e recifes da praia de Catuama. Na região central, a região de Suape (recifes, praias, prados e manguezais), e no Litoral Sul, a região do Rio Formoso (recifes, praia e manguezal).

Entre os resultados apresentados sobre as amostras coletadas estão: 18 amostras de sedimento para análise de presença de HPAs; 72 mostras de comunidades de microalgas; 48 amostras de prados de angiospermas marinhos e 72 amostras de testes ecotoxicológicos. Também foram realizados três experimentos com bioensaios com simbiontes de corais; coletadas cinco espécies de crustáceos; realizadas 300 fotos e ambientes recifais emersos, além de 156 amostras de estrutura trófica com base em isótopos estáveis.

“Sobre as amostras de crustáceos, realizamos testes no sangue dos cinco exemplares coletados para identificação de genotoxicidade e, além disto, os bioensaios realizados com algumas espécies de corais mostrou que, dependendo da concentração de HPA na coluna d´água, esses organismos apresentaram diminuição na sua atividade fotossintética. Isso é possível acontecer em ambientes naturais e impactar de forma secundária os recifes”, esclareceu o representante do DCEAN, da UFPE.

Texto e imagens: Flávia Cavalcanti